Sibutramina

Devo tomar sibutramina para emagrecer?

A sibutramina é uma das drogas mais prescritas no Brasil para o tratamento da obesidade. Poucas pessoas que têm dificuldade em perder peso não têm contato com essa droga, pois, desde que as anfetaminas foram retiradas do mercado, ela tomou uma dimensão muito grande.

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Isso porque, de todas as drogas emagrecedoras, ela é a que mais se aproxima dos efeitos emagrecedores das anfetaminas, apesar de agir de maneira diferente no cérebro. Desde que as anfetaminas foram retiradas do mercado, o preço da sibutramina caiu bastante e o consumo dela aumentou muito.

Efeitos da sibutramina

Quando a sibutramina foi sintetizada e lançada no mercado, não foi com o intuito de emagrecer. Ela foi lançada em 1980, com o nome “meridia”, como um antidepressivo. Era uma droga que atuava na depressão por aumentar os níveis de serotonina nas pessoas que usavam.

Muitos efeitos das drogas na medicina são encontrados por acaso, e com a sibutramina não foi diferente. Os médicos perceberam que as pessoas que faziam uso da sibutramina, além de melhorarem da depressão, emagreciam bastante.

Começou a se estudar a possibilidade de usar essa droga para o emagrecimento. Assim, em 1999 a sibutramina foi lançada no mercado, por dois laboratórios que pegaram a patente da droga, com um nome diferente: Reductil, e, posteriormente, Plenty.

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Essas foram as primeiras sibutraminas com as quais os médicos tiveram contato. Eram medicamentos extremamente caros na época. O preço da caixa com 30 comprimidos de sibutramina hoje equivaleria a mais de 150 reais. Hoje, ela é comprada por R$15,00 a R$20,00 nas farmácias.

Houve uma mudança grande no perfil da droga, que tornou ela bem mais acessível, do ponto de vista econômico, para várias pessoas. Para alguns endocrinologistas, isso elimina a necessidade da volta das anfetaminas para o mercado. Uma das alegações do Senado é o fato da população nem sempre ter acesso a drogas caras para o emagrecimento, mas a sibutramina é uma medicação barata e acessível. No Brasil, também existem farmácias que vendem, sem receita, medicações com receita controlada.

Em 2010, quando houve a proibição das anfetaminas, a ANVISA aventou a hipótese de banir também a sibutramina como medicação emagrecedora. Porém, houve um posicionamento dos endocrinologistas contra essa proibição, uma vez que o mecanismo se ação da sibutramina é bem diferente do mecanismo de ação das anfetaminas, com menos efeitos colaterais, e que não faria sentido proibir uma droga que estava ajudando no controle da obesidade.

A ANVISA reforçou a maneira de prescrição dessas drogas. Hoje, para o endocrinologista prescrever a sibutramina, além de precisar fazer um receituário especial chamado B2, que é azul (antes a prescrição era feita em receituário C1, branco e carbonado), o médico ainda tem que assinar um termo carbonado que mostra todos os possíveis efeitos colaterais. Isso dificultou prescrições desnecessárias e diminuiu o abuso, até mesmo por parte de profissionais que não são endocrinologistas (antes, a sibutramina era prescrita por qualquer profissional).

Prescrição de drogas emagrecedoras

Alguns endocrinologistas são extremamente resistentes em prescrever medicamentos para ajudar no emagrecimento, a não ser que percebam que a pessoa realmente precisa dessa medicação. Muitas pessoas obesas não têm autocontrole – elas têm compulsões muito grandes e muitas vezes precisam de ajuda medicamentosa.

Não se prescreve uma medicação emagrecedora para uma paciente que precisa perder 5kg, por exemplo. O médico precisa ter bom senso de filtrar e selecionar os pacientes que realmente precisam da medicação.

Mecanismo de ação da sibutramina

Como a sibutramina está no mercado desde 1980, houve bastante tempo para que os mecanismos de ação e efeitos colaterais dela fossem estudados.

Sabe-se que a sibutramina não atua estimulando a liberação de adrenalina. Ela tem um efeito de inibição e recaptação de alguns neurotransmissores relacionados com a saciedade.

Os neurotransmissores responsáveis pela saciedade (serotonina, noradrenalina e dopamina) são liberados na fenda sináptica para que possam ocupar os seus receptores e desencadear suas funções de saciedade, bem-estar, melhora de cognição cerebral, etc. Prontamente, essas substâncias são degradadas por enzimas que vão fazer com que elas fiquem pouco tempo atuando na fenda sináptica.

A sibutramina diminui a velocidade de degradação desses neurotransmissores. Ela faz com que esses neurotransmissores sejam menos recaptados e fiquem mais tempo promovendo os efeitos deles na fenda sináptica. Então, ela vai aumentar os efeitos da serotonina, da noradrenalina e da dopamina.

Como a sibutramina aumenta a serotonina, a pessoa vai ter uma sensação maior de saciedade e de bem-estar, principalmente nos pacientes que são obesos e depressivos, que ficam mais eufóricos e felizes.

Ela também tem um efeito sobre a noradrenalina que causa um efeito positivo sobre o metabolismo: a noradrenalina vai acabar aumentando o efeito termogênico e o metabolismo daquela pessoa.

Efeitos colaterais da sibutramina

Por outro lado, esse aumento de noradrenalina também é responsável por alguns efeitos colaterais da sibutramina, como taquicardia, boca seca, insônia, prisão de ventre (constipação intestinal), dores de cabeça e, em algumas pessoas, irritabilidade. Nas pessoas ansiosas, ela pode aumentar a ansiedade. Esses efeitos colaterais são bem frequentes.

Alguns endocrinologistas relatam que, na prática clínica, os efeitos colaterais mais frequentes são: boca seca (ou “xerostomia”, que praticamente 98% das pessoas que usam sibutramina têm); constipação intestinal, principalmente nas mulheres (a maioria das mulheres já têm problemas com o intestino, e a sibutramina piora bastante esse problema); e dores de cabeça, principalmente nas pessoas que já têm predisposição.

Alguns endocrinologistas indicam evitar ao máximo o uso de sibutramina em pessoas que têm problema de enxaqueca (cefaleia), pois ele vai piorar. Se a pessoa tiver insônia, vai haver piora do quadro.

Portanto, o médico precisa selecionar bem a pessoa para quem vai prescrever esse tipo de droga.

Quando houve a retirada das anfetaminas do mercado, aventou-se também a possibilidade de retirar a sibutramina, pois alguns trabalhos mostraram uma maior incidência de eventos cardiovasculares com a sibutramina (maior risco de mortes por infarto e AVC).

Alguns endocrinologistas acreditam que esses eventos, que estão descritos em bula, podem acontecer se o médico faz uma seleção malfeita do paciente. Por exemplo, deve-se evitar o uso de sibutramina por pacientes que são hipertensos mal controlados, pacientes diabéticos (que têm risco cardiovascular aumentado) e mulheres com histórico de doenças tromboembólicas.

O estudo SCOUT, que é o maior já feito em relação à sibutramina, mostrou que, se é feita uma boa seleção do paciente, os efeitos colaterais são reversíveis e podem ser muito bem controlados.

Porém, na época, não havia um controle muito grande da prescrição da droga, e houve um grande abuso por pessoas que não tinham seletividade nenhuma para usar a medicação. Qualquer pessoa com uma receita de sibutramina comprava o medicamento na farmácia, e não passava por uma averiguação médica antes.

Várias pessoas com problemas cardíacos e pessoas hipertensas (no Brasil, várias pessoas são hipertensas e não sabem) fizeram uso da medicação e tiveram vários tipos de problemas precipitados pela droga.

Alguns endocrinologistas associam esses eventos mais a uma má seleção da prescrição da droga do que à associação dela com altas chances de efeitos colaterais, e não acham que os efeitos colaterais da sibutramina devam ser comparados com os efeitos cardiovasculares que as anfetaminas podem causar.

Uso correto da sibutramina

Alguns endocrinologistas prescrevem bem pouco a sibutramina, e não gostam de prescrever a droga para atletas que treinam, pois ela tem um efeito de aumentar o catabolismo em algumas pessoas. Porém, existem alguns pacientes, principalmente aqueles com índice de massa corporal acima de 30, 35, nos quais esses endocrinologistas usam a sibutramina com bons resultados.

A droga tem um momento para ser usada e, se não for agregada a uma mudança de hábitos de vida (não só hábitos alimentares, como também atividade física e bom sono), a pessoa vai voltar a ter um ganho de peso inevitável. Droga nenhuma vai substituir essas mudanças.

A sibutramina é uma das drogas mais consumidas no Brasil. Alguns trabalhos mostram que o Brasil, hoje, é o maior produtor e consumidor de drogas para emagrecer, principalmente derivadas de anfetaminas, ganhando inclusive dos Estados Unidos.

Os médicos têm feito trabalhos, como o TMT, mostrando o que as pessoas podem fazer, a médio e longo prazo, para mudar o metabolismo e melhorar a flexibilidade metabólica sem precisar da utilização dessas drogas que, muitas vezes, vão ter vários efeitos colaterais.