Maconha: Benefícios, Efeitos Colaterais e Como Usá-la (Medicinalmente)

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Uso terapêutico da maconha: o que você precisa saber

Existem três espécies principais de maconha: a Cannabis sativa, mais conhecida; a Cannabis indica, também muito utilizada; e a Cannabis ruderalis. Todas elas têm basicamente as mesmas propriedades medicinais, apesar de que, entre uma e outra, existem variações nas concentrações de princípios ativos – como do THC (tetra-hidrocarbinol), que tem ação psicotrópica e repercute no sistema nervoso central; e do CBD (canabidiol), o princípio ativo de maior concentração e mais estudado da maconha, presente no óleo dela e encontrado em grande quantidade nas folhas dela.

A Cannabis sativa é a espécie mais cultivada e utilizada no mundo todo, inclusive medicinalmente.

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Cannabis sativa.
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Cannabis ruderalis.

História do uso da maconha

A maconha é uma planta asiática que se espalhou pelo mundo todo. Existem registros arqueológicos do uso e cultivo dela há 12.000 anos. Na medicina chinesa, talvez uma das primeiras formas organizadas de medicina no planeta, a maconha é utilizada desde 2.700 a.C., o imperador chinês Shen Nong já recomendava o uso dela de forma terapêutica para tratar vários problemas, e povos como os sumérios, os egípcios, os indianos e os assírios também utilizavam-na há milhares de anos.

O uso medicinal da maconha foi deturpado, e hoje ela é muito utilizada como droga recreativa por alterar a percepção (dos sons, da realidade, etc.) e relaxar.

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Existem muitos estudos indicando o uso da maconha para tratar doenças, porém, ainda há escassez de resultados que comprovem a eficiência dela. Em alguns casos, a ação dela não é 100% comprovada; em outros ela tem resultados excelentes e pode ser essencial para tratar a saúde.

Fumar cigarro de maconha (em uso controlado por médicos) é testado como atividade terapêutica em algumas pesquisas, e em outras é testado medicinalmente em várias formas de administração o uso de subprodutos da maconha, como resina, óleo, canabidiol e THC (e combinações entre eles), e até extratos, tinturas e pós feitos com maconha.

Atualmente, a maconha é considerada promissora para a cura de enfermidades como Alzheimer, Parkinson, esclerose múltipla, dor crônica, epilepsia e para auxiliar no emagrecimento.

Usos terapêuticos da maconha

Muitos têm resistência a medicamentos, como na epilepsia intratável, que não responde a remédios e provoca convulsões frequentes. Nesses casos, a maconha tem sido considerada uma solução auspiciosa.

As pesquisas não identificam diferenças entre a maconha macho e a fêmea, há uma crença popular de que esta (que têm as flores fêmeas) tem maior concentração de CBD e THC de que a com as flores masculinas.

Em muitos países, o cultivo da maconha, a produção e venda dos derivados dela (como medicamentos) são liberados sob orientação médica.

Muitos centros na Europa e na Ásia utilizam a maconha de forma terapêutica para tratar vários problemas de saúde. No Brasil, e na maioria dos países do mundo, ainda há restrição sobre o uso da maconha por receio da expansão do uso dela como droga recreativa.

Hoje, no Brasil, a ANVISA está abrindo possibilidades para o cultivo da maconha e produção de seus medicamentos, e nas farmácias, é possível comprar (com prescrição médica) um remédio chamado mevatyl, à base de maconha e que não é recomendado para o tratamento da epilepsia, pois tem THC, que piora a doença.

Em breve, outros medicamentos serão liberados para venda. Está em trâmite para liberação no Brasil o plantio de maconha e a produção de seus derivados. Hoje, quem precisa de canabidiol, por exemplo, precisa que o médico indique-o por meio de um laudo médico, e com ele a pessoa registra um protocolo na ANVISA solicitando autorização para importá-lo – ele não é barato – dos Estados Unidos ou da Europa.

Efeitos colaterais do uso da maconha

De acordo com pesquisas, os efeitos colaterais do uso da maconha não são preocupantes: ela não causa alterações no fígado, na vesícula, no pâncreas, nos rins ou no sangue. Porém, o uso contínuo e prolongado dela pode causar dependência química (da mesma forma que o cigarro, o álcool e o xarope para tosse), principalmente em dependentes químicos.

Além disso, algumas pesquisas constatam que o uso frequente da maconha por pessoas com problemas psiquiátricos, piora esse quadro, inclusive causando surtos psicóticos e esquizofrênicos. A maioria das pessoas que tem problemas psiquiátricos não sabe que os têm.

Desenvolvimento de esquizofrenia

Em um estudo realizado na Nova Zelândia com 1037 jovens com idade a partir de 26 anos, que declararam usar maconha desde a adolescência, verificou-se que aqueles que começaram a utilizar maconha a partir dos 15 anos tinham maior tendência a ter surtos esquizofrênicos do que os que começaram a partir dos 18 anos, ou seja, se a pessoa tem propensão a desenvolver distúrbios psiquiátricos, quanto mais jovem ela começa a utilizar maconha, maior possibilidade ela tem de desenvolver esquizofrenia.

Outras pesquisas demonstram que em pessoas de meia idade e em idosos, a frequência dos surtos esquizofrênicos em virtude do uso da maconha são menores ainda.

Efeitos psicóticos

Uma pesquisa realizada na Inglaterra demonstrou que, em usuários de maconha, a tendência de desenvolver efeitos psicóticos – entre eles depressão, ansiedade e tendência suicida – era maior naqueles que usavam doses maiores e por tempo prolongado dela.

No Canadá foi testado um grupo de dependentes de maconha que desenvolveram depressão. Essas pessoas foram convidadas a entrar em um estado de abstinência da droga por 28 dias, e a tendência à depressão foi atenuada significativamente a partir disso.

Um estudo americano demonstrou que, em usuários de maconha, a intensidade do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) é muito maior.

Em outro estudo americano, pacientes que faziam uso terapêutico de maconha sob acompanhamento médico foram avaliados em grupos de idades diferentes – de 18 a 30 anos; de 31 a 50 anos; e acima de 50 anos.

Verificou-se que, no primeiro conjunto, a tendência a usar maconha fora do tratamento – em situações de estresse, ansiedade, tristeza ou conflito – era maior que nos de pessoas com idades mais avançadas. Isso demonstra que quanto mais jovem o usuário, maior a influência psíquica dos princípios ativos da maconha.

Efeitos da maconha em crianças

Em outro estudo foram avaliadas crianças de 8 meses a 5 anos, cujos pais fumavam maconha e elas inalavam involuntariamente a fumaça no ambiente. Também foram avaliadas crianças que comeram doces com maconha (muitas pessoas produzem doces, bolos e outras receitas com maconha e deixam resíduos da droga em recipientes nos quais, algumas vezes, preparam a alimentação das crianças).

A maioria dos avaliados teve que recorrer ao atendimento médico emergencial por conta de, por exemplo, ataques convulsivos pela inalação da fumaça da maconha.

Usuários de maconha devem fazer uso dela longe de crianças, para não expô-las à situações de risco.

Dirigir sob influência da maconha

Não só o álcool contribui para acidentes de trânsito. Em uma pesquisa realizada na Suíça, verificou-se que em pessoas sob o efeito da maconha há queda das competências para dirigir veículos – perde-se agilidade na resposta a situações de risco, a tomada de decisões é comprometida e as relações de distância, por exemplo, com os veículos da frente e os de trás, são distorcidas, o que aumenta drasticamente o risco de acidentes.

Uso de maconha durante a gravidez

Não existem pesquisas que demonstram que o uso da maconha durante a gravidez é prejudicial para a saúde do bebê. A maconha não é abortiva, porém, o tetra-hidrocarbinol atravessa a membrana placentária, é absorvido pelo bebê, e influencia a estrutura neurológica dele, que ainda está se formando, adicionando nesse processo um princípio psicoativo.

Existem pesquisas indicando que, nas mães que fumaram maconha durante a gestação, normalmente os filhos têm efeitos persistentes do tetra-hidrocarbinol ao longo da vida, e têm tendência a desenvolver problemas psiquiátricos, como ansiedade, TOC, esquizofrenia, surtos psicóticos, déficit de atenção e outros.

Gestantes usuárias de maconha devem suspender o uso dela – mesmo que terapêutico e com acompanhamento médico – durante a gestação.

Tratamento de usuários de crack

Um estudo canadense demonstrou que usuários de crack que aceitaram substituí-lo por maconha, ou usá-lo concomitantemente à ela, tiveram uma redução do consumo de crack. Isso é positivo, pois o crack surte efeito sobre o organismo de forma mais rápida, mais intensa, e é altamente degenerativo – há quem morra por entrar em colapso durante o uso de crack.

Essa pesquisa sugere que a maconha pode ser uma proposta de tratamento anti-crack, reduzindo significativamente ou mesmo eliminando o uso do crack.

Benefícios do uso medicinal da maconha

Tratamento da epilepsia

A epilepsia é um problema neurológico que causa convulsões, e quando considerada intratável, os medicamentos químicos não exercem efeito sobre ela.

Um estudo australiano com casos de epilepsia intratável demonstrou que, em adultos que utilizaram maconha terapeuticamente para controlar as convulsões, houve 90% de redução delas, e em crianças, 70%.

São resultados melhores que os de medicamentos químicos disponíveis hoje. Para a epilepsia, principalmente em casos intratáveis, o uso da maconha e dos derivados dela compõem uma forma de tratamento eficiente – os extratos de maconha têm que estar livres de THC, não se deve usar canabidiol contaminado com THC, pois ele pode piora a epilepsia.

Em um estudo americano, cerca de 275 jovens com epilepsia foram tratados terapeuticamente com maconha, e apenas 37 deles não relataram efeito positivo; 26 alegaram 100% de inibição das convulsões; e o restante relatou reduções entre 10% e 90% delas.

Em um estudo realizado por uma clínica de Israel, 74 crianças com epilepsia intratável utilizaram derivados de maconha. Como resultado, 13 delas tiveram 100% de inibição das convulsões, e apenas 5 relataram piora nos casos convulsivos. O restante relatou diminuição na ordem de 10% a 90% das convulsões.

De acordo com esses números, na grande maioria dos casos (cerca de 90%), o efeito da maconha inibe de 10% a 100% das convulsões.

Dor crônica

A dor crônica é um tipo de neuropatia: há uma espécie de inflamação das terminações nervosas, e dor de origem difusa (não se é capaz de precisar o local dela), às vezes na cabeça, no quadril ou na perna, às vezes no corpo todo (no nervo trigêmeo, no pescoço, nos ombros, nos braços, etc.).

Em um estudo americano, 48 pacientes com dor crônica utilizaram canabidiol por 3 semanas, e 100% deles relatou amenização significativa em todos os aspectos da dor.

Na Inglaterra, foram testados compostos feitos à base de maconha – um com THC, outro sem. No tratamento da dor crônica, os compostos que tinham THC tiveram melhores resultados que os que não tinham. Isso demonstra que o THC exerce importante influência analgésica. Como ele tem ação psicotrópica, atua sobre o sistema nervoso central e neutraliza a dor.

Em uma pesquisa realizada no Canadá, pacientes com dor crônica fumaram cigarros contendo cerca de 1g de maconha seca, desfiada, 3 vezes ao dia durante 5 dias. Nesse período, todos eles relataram alívio significativo em todos os padrões de dor.

Essas pesquisas foram realizadas em períodos curtos de uso, porém a tendência à dependência à droga não foi avaliada, por isso não há segurança em legalizar o uso terapêutico do cigarro de maconha.

Para quem sofre de algum tipo de dor difusa, dor crônica, fibromialgia, inflamação do trigêmeo ou neuropatia periférica (que também causa dores), o uso da maconha pode ser eficiente para resolver o problema ou, pelo menos alivia-lo. Hoje, no Brasil, é necessária recomendação médica e autorização da ANVISA para importação do medicamento.

Tratamento da doença de Parkinson

Muito se fala sobre o tratamento da doença de Parkinson com extratos de maconha. Na internet, há relatos de pessoas que têm tremores acentuados e que para interrompê-los fumam cigarro de maconha ou tomam canabidiol.

Em um estudo realizado na Inglaterra, um extrato feito à base de maconha foi administrado a 19 pacientes com mal de Parkinson: não houve toxidade, alguns relataram melhora sutil, mas a maioria não apresentou evolução positiva no quadro motor.

Em um estudo israelense com pacientes que fumavam cigarros de maconha (sob supervisão médica) para o tratamento do mal de Parkinson, foi constatada melhora significativa no quadro geral da doença – nos tremores, na rigidez muscular e nas dores musculares – e também na qualidade do sono.

Um terceiro estudo, americano, demonstrou que o uso do THC, junto com outros medicamentos comerciais específicos, potencializou o tratamento e amenizou os sintomas gerais do mal de Parkinson. Isso demonstra que o THC tem ação importante no relaxamento da musculatura, no controle dos tremores e no sistema nervoso central.

Na República Tcheca foi feita uma pesquisa com portadores da doença de Parkinson que, sem acompanhamento ou indicação médica, utilizaram maconha terapeuticamente em casa. Nesse país, o uso da maconha, mesmo que terapêutico, é proibido, portanto esses pacientes não se identificaram, e dos que foram consultados, todos indicaram melhora significativa no quadro da doença. Porém, não há uma métrica de como a maconha foi administrada: alguns fumavam cigarros que continham-na, outros usavam canabidiol, outros THC.

Um estudo inglês realizou um experimento administrando maconha em um grupo de pacientes com Parkinson e medicamentos químicos em outro grupo de pacientes também com a doença. Como resultado, nem os remédios comerciais nem a maconha acabaram com os tremores, porém, esta causou um efeito relaxante muscular, que amenizou a ansiedade dos pacientes, algo que aqueles não conseguiram.

Nesse caso, considera-se que, para pacientes de Parkinson em que a ansiedade esteja envolvida como gatilho para despertar os tremores, a maconha pode servir de tratamento, pelo menos, complementar.

Não há uma conclusão definitiva sobre o uso da maconha como tratamento em casos de Parkinson. Há casos de efeitos benéficos, principalmente nas pesquisas que têm THC envolvido. Cada caso deve ser avaliado para ponderar o uso ou não da droga.

Tratamento da esclerose múltipla

A esclerose múltipla é uma doença degenerativa do sistema nervoso, progressiva, difícil de ser tratada e que causa perda da mobilidade, tremores, dores, entre outros males.

Um estudo realizado na Holanda com pacientes com esclerose múltipla demonstrou que o uso da maconha não foi eficiente em evitar os tremores propiciados pela doença.

Duas pesquisas foram realizadas na Inglaterra com o uso de um spray oral de extrato de maconha. Na primeira, os pacientes com esclerose múltipla relataram significativa melhora no quadro de dor e na qualidade do sono. Na segunda, todos os sintomas da esclerose múltipla foram significativamente amenizados.

Em outro estudo inglês, 112 pacientes com esclerose múltipla fumaram cigarros de maconha medicinalmente, e 97% deles relatou melhora significativa em todos os aspectos da doença.

Em um estudo alemão, cápsulas com extrato de maconha foram administradas 2 vezes ao dia a pacientes com esclerose múltipla, que como resultado, tiveram amenização significativa dos espasmos – movimentos involuntários causados pela doença –, melhoraram a coordenação motora e começaram a andar sozinhos com melhor desempenho.

Um estudo americano avaliou o uso do spray oral com extrato de maconha em pacientes com esclerose múltipla que tinham incontinência urinária e precisavam usar fraldas. O uso do spray melhorou muito o controle da frequência da micção, aliviou as dores crônicas e facilitou o sono desses pacientes.

Visite o link a seguir para saber mais sobre o uso medicinal da maconha.

Dependência da maconha

Existem pessoas que têm algum dos problemas descritos aqui e têm medo de usar maconha pela possibilidade de ficarem dependentes dela ou de serem taxadas como viciados.

O diazepam, uma das drogas mais utilizadas no mundo para tratar problemas como ansiedade e depressão, causa dependência química em pouquíssimo tempo de uso, e nem por isso muitas pessoas deixam de usar ele e outros medicamentos que atuam sobre o sistema nervoso central, como a fluoxetina.