Hipertensão

Hipertensão e problemas de circulação

O paciente hipertenso tem mais predisposição a ter problemas de circulação. A pressão alta provoca danos na parede dos vasos. A circulação é formada por uma série de “mangueiras” (vasos) de diversos calibres, desde calibres maiores, como a aorta abdominal, até calibres tão finos quanto fios de cabelo, que são os capilares sanguíneos.

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As “mangueiras” desse sistema de encanamentos têm uma certa capacidade na parede. Quanto maior a pressão que se exerce do sangue sobre essas paredes, maior vai ser o dano sobre elas.

Quando uma mangueira de jardim é ligada, se a pressão da água é baixa, ela vai lenta na parede da mangueira e não provoca dano nenhum. Se a pressão da água é muito forte, às vezes ela pode arrebentar a mangueira, se ela não tiver um revestimento bastante resistente.

Isso também acontece na circulação. Artérias de grande calibre, como a aorta, têm um revestimento muscular maior e que aceita uma pressão maior. Já os capilares sanguíneos têm um revestimento muito delicado, que não aceita muito bem essa pressão.

Pacientes hipertensos que não tratam a pressão alta têm um sistema vascular sempre sob estresse, que está sendo machucado a cada batimento cardíaco. Ao longo dos anos, isso vai provocar uma alteração na parede dos vasos sanguíneos. Não há um organismo que resista a uma pressão alta por longos períodos.

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O problema do paciente hipertenso é que, muitas vezes, ele não sente nenhum sintoma. Se o paciente não tem dores de cabeça ou mal estar, ele acha que não precisa tomar o remédio. A necessidade da medicação é porque, mesmo sem sintomas, as lesões na parede da circulação estão acontecendo.

Tratamento da hipertensão

A pessoa com pressão alta não pode tomar remédios só de vez em quando, ou somente quando tem uma pressão na nuca, um mal estar ou quando mede a pressão e ela está acima de 15/9.

A pressão alta a partir de 13/9 (130/90mm de mercúrio) deve ser tratada com anti-hipertensivos, que devem ser tomados regularmente, independentemente do paciente ter ou não sintomas. Do contrário, o dano vascular vai acontecer, e no futuro – depois de 20, 30 anos de pressão alta – vai aparecer um AVC, um problema renal, um problema cardíaco ou uma trombose das pernas, porque toda a circulação do corpo vai sendo danificada, e esse problema de envelhecimento precoce das artérias ocorre no organismo como um todo.

Pressão alta

A pressão alta, ou hipertensão arterial, é uma epidemia no mundo moderno. Os estudos mostram que cerca de 50% das pessoas com mais de 50 anos são hipertensas.

Para se prevenir, é preciso conhecer um pouco do funcionamento do sistema circulatório.

Sistema circulatório e pressão arterial

O sangue do organismo, impulsionado pelo coração, percorre as artérias e volta para o próprio coração pelas veias. É como se, em um encanamento de uma casa, a água da caixa fosse expelida por uma bomba e, depois de utilizada, passasse por um filtro para ser purificada e voltasse para a caixa para ser bombeada de novo.

A pressão arterial é resultado da força que o sangue faz contra as paredes das artérias para conseguir circular pelo corpo. Se saísse do coração sem pressão nenhuma, ele não teria condições de circular e a pessoa morreria em poucos minutos.

O corpo humano é muito sensível aos aumentos de pressão. Se o sangue for sempre bombeado sobre pressão mais alta, vários órgãos serão prejudicados.

Voltando ao exemplo do encanamento, se a água for bombeada sob alta pressão, logo os estragos vão aparecer, como torneiras pingando e canos com vazamento. Ao final, com tanto esforço, a bomba hidráulica vai falhar – o fluxo de água diminui e o sistema entra em colapso.

O mesmo acontece no corpo: a hipertensão dilata o coração e prejudica o sistema arterial. Se a situação e mantiver por anos a fio, os estragos começam a aparecer no organismo.

Por isso, é importante medir a pressão com regularidade.

Quando o coração contrai para expelir o sangue, a pressão arterial atinge o seu valor mais elevado – essa é a pressão máxima, ou sistólica. Quando os músculos do coração relaxam para que o sangue entre de volta, a pressão cai para um valor menor – essa é a pressão mínima, ou diastólica.

Hipertensão arterial de causa vascular

A hipertensão arterial pode ter como causa o estreitamento da circulação dos rins. Isso é bastante frequente e pouco conhecido.

Existem duas causas principais desses problemas de circulação que levam à hipertensão arterial.

Displasia fibromuscular

Nos pacientes jovens, existe uma doença chamada displasia fibromuscular, que altera a circulação das artérias (em especial da artéria renal, que irriga os rins) e faz com que a pressão suba.

Como a artéria está estreitada, falta sangue para irrigar o rim, ele interpreta como se esse estreitamento fosse uma baixa pressão e manda hormônios para que a pressão aumente cada vez mais, mesmo o indivíduo já estando com uma pressão normal.

Nos pacientes jovens, o diagnóstico geralmente ocorre por volta dos 20 a 30 anos de idade. Para se fazer esse diagnóstico, um ultrassom renovascular (dos rins) com um doppler que estuda a circulação é suficiente.

Arteriosclerose

Já nos pacientes com idade mais avançada (meia-idade ou idosos), a hipertensão renovascular acontece por causa da aterosclerose: por causa do envelhecimento das artérias, o acúmulo de colesterol na parede dos vasos vai fazendo com que esse vaso vá estreitando. Assim, falta sangue para irrigar os rins, que interpretam como uma pressão baixa e mandam os mesmos hormônios para que a pressão aumente cada vez mais, mesmo que o paciente seja hipertenso.

Dessa forma, o paciente tem emergências hipertensivas de pressão 20/10, 20/12, 20/14, às vezes até mais altas que isso, e precisa ir para o pronto-socorro com urgência, pois fica candidato a ter um AVC hemorrágico (a ter um sangramento intracraniano) por causa da pressão alta).

Pessoas muito jovens com pressão alta, ou de mais idade, mas que têm uma pressão de difícil controle (que tomam 2 ou 3 anti-hipertensivos e mesmo assim a pressão não é controlada), são candidatas a fazer um ultrassom com doppler dos rins para avaliar se a causa da pressão não tem origem no estreitamento das artérias renais.

Glaucoma e hipertensão

Uma hipertensão descontrolada pode trazer problemas muito sérios.

O glaucoma é uma doença silenciosa que leva a uma lesão do nervo ótico por aumento da pressão intraocular, e, progressivamente, pode levar o paciente a uma situação de cegueira ocular irreversível. O glaucoma não tem sintomas, e se o paciente não procurar o médico oftalmologista a tempo, muitas vezes não é possível salvá-lo.

O descontrole da hipertensão em um indivíduo que tem hipertensão recorrente pode trazer outros problemas para o corpo todo.

Existem dois tipos de hipertensão. A hipertensão arterial sistêmica atinge a parte sistêmica do organismo do paciente, e pode causar danos em relação ao olho, como uma retinopatia hipertensiva ou uma trombose ocular, e, inclusive, levar a outro tipo de glaucoma: o glaucoma neovascular.

Existe também a hipertensão ocular, que não tem relação com a hipertensão arterial sistêmica, e pode, em alguns casos, levar ao glaucoma que causará alteração do nervo ótico. São duas patologias diferentes.

A hipertensão “comum” pode ser medida e muitas vezes controlada com medicação, e o paciente sente alguns sintomas quando ela está em desequilíbrio.

A hipertensão ocular não tem sintomas. Olhos secos ou olhos vermelhos, causados, por exemplo, porque a pessoa trabalha muito tempo no computador, são chamados “sinais de superfície” e ocorrem por exposição do olho.

Quando o paciente procura assistência para fazer um checkup de rotina anual com seu oftalmologista, que irá medir o grau e a pressão dos olhos, é a oportunidade de identificar e detectar a hipertensão ocular. Ela precisa ser investigada e, em alguns casos, o paciente já tem lesão, já tem o glaucoma, e é necessário trata-lo para evitar a cegueira.

Existem alguns fatores de risco que são importantes: pacientes acima de 40 anos; pacientes negros (pois os negros têm um glaucoma mais agressivo e evoluem para a cegueira mais rapidamente que as pessoas brancas; pacientes míopes; e também pacientes que têm algumas outras alterações, como a diabetes, porque o organismo desses pacientes não funciona tão adequadamente, e eles podem evoluir com algumas alterações que podem ocasionar a hipertensão ocular.

A cortisona é um medicamento que pode ser comprado em farmácias sem receita médica, diferente dos antibióticos. Quando ela é instilada no olho, ela causa uma sensação de bem-estar, porque o olho fica muito branquinho.  Porém, o uso de cortisona na forma de colírio pode levar ao aparecimento de catarata e glaucoma nesses pacientes. A principal forma de manifestação da pressão ocular geralmente são as cortisonas tópicas (colírios).

A cortisona aumenta a pressão ocular em alguns pacientes. Mesmo aumentando a pressão, o paciente não vai perceber no seu dia-a-dia que ele está tendo alguma alteração visual, só é possível detectar com um checkup de rotina no consultório.

Pontadas nos olhos

Uma pessoa relata ter pontadas dentro dos olhos. Todo sintoma deve ser avaliado. Geralmente, pontadas nos olhos podem estar relacionadas a crises de hipertensão arterial, e também podem estar associadas com sinais de superfície, como olhos vermelhos e cansaço visual no computador por excesso de incidência de luz. Hoje em dia, as pessoas piscam muito rápido e não têm uma lubrificação adequada dos olhos.

Recomenda-se piscar devagar para fazer a troca ideal do filme lacrimal. O ser humano tem a necessidade de fazer muitas piscadas por minuto. É importante ter essa piscada lenta para lubrificação dos olhos, principalmente pacientes que usam o computador ou qualquer dispositivo eletrônico.

Quem tem olho seco deve estar ainda mais atento a isso. As luzes dos dispositivos eletrônicos evaporam a lágrima, pois é uma concentração de água. Normalmente, as pessoas trabalham em ambientes com muita luz e com ar condicionado, e naturalmente já estão expostas a uma situação de muita carga de trabalho e muitas horas acordadas. Tudo isso acaba gerando um estresse nos olhos, que pode causar as pontadas.

A retina é o fundo do olho. O olho é como uma máquina fotográfica e é todo protegido, pois suas células são fotorreceptoras. A hipertensão arterial pode interferir nos vasos da retina, causando uma retinopatia hipertensiva, diferente do glaucoma, que vai levar uma lesão do nervo que pode gerar a cegueira.

Cirurgia de miopia é contraindicada em casos de glaucoma?

No tratamento do glaucoma, o médico basicamente reduz a pressão intraocular, com colírios, laser ou com cirurgia. Na cirurgia refrativa, que é a cirurgia da miopia o médico interfere na córnea.

A pressão ocular é medida na córnea. Quando a pessoa faz uma cirurgia que interfere na estrutura ocular, a biomecânica da córnea é mudada, o que vai alterar a medição da pressão intraocular no aparelho, impedindo que a pressão dentro do olho seja inferida corretamente. Por isso, a cirurgia de miopia é contraindicada em pacientes com glaucoma.

Quando o glaucoma é descoberto, independentemente da fase da vida, ele deve ser tratado e passa a ser prioridade.

Se o glaucoma não é tratado, ele evolui rapidamente.

Evolução do glaucoma

O principal glaucoma, que ocorre em 80% dos casos, é o glaucoma primário de ângulo aberto, que é progressivo e lento, o que ajuda a ter tempo para detectar a doença. Como é uma doença que não tem sintoma, quando a pessoa tem uma lesão, ela já perdeu aquela parte do nervo. Assim, quando o glaucoma é detectado, geralmente ele está muito avançado. Cerca de 50% dos pacientes nos quais o glaucoma é detectado, já têm, na primeira consulta, alteração de lesão glaucomatosa avançada no olho e não sabem.

O glaucoma geralmente é mais predominante acima dos 40 anos, pois o envelhecimento aumenta muito as chances de alteração glaucomatosa.

O paciente só vai ter a percepção que ele está com uma visão muito limitada quando está em uma situação grave da doença. O paciente idoso já tem as limitações da própria idade, e quando isso está associado a uma perda de visão, isso transforma a vida da pessoa em uma situação muito delicada.

Em relação a hipertensão arterial sistêmica, é importante se consultar com um cardiologista e cuidar da alimentação, para manter uma vida saudável e os olhos saudáveis.

Consulta oftalmológica

Existem algumas etapas da consulta oftalmológica. A etapa de refração está relacionada aos óculos para enxergar melhor. A etapa do exame oftalmológico é a medição da pressão e verificação do fundo do olho, que é fundamental para angariar as informações e entender se aquele olho tem ou não risco de presença do glaucoma.

Raios luminosos na visão

Uma pessoa relata ver raios luminosos, como aqueles de LED, mesmo sem dor de cabeça. Existe uma estrutura dentro do olho, chamada vítreo, que está em contato íntimo com a retina e é transparente. Dependendo dos movimentos da pessoa, de esforço físico ou de algum impacto, esse vítreo pode se movimentar dentro do olho e causar flashes de luz na visão.

Alguns pacientes têm a sensação de moscas volantes, como se fossem pequenos bichos flutuando na visão, mas os flashes de luz são os mais preocupantes. Nesses pacientes, o ideal é fazer o exame de fundo de olho.

Exame de fundo de olho

O exame de fundo de olho pode detectar doenças como a hipertensão arterial sistêmica (encaminhando o paciente para um cardiologista) e a diabetes (encaminhando o paciente para o endocrinologista), mesmo sem o paciente ter sintomas, pois são detectadas por lesões no fundo do olho.

Alguns pacientes se consultam com oftalmologista pois relatam um embaçamento visual, e o médico detecta que o fundo daquele embaçamento visual é o descontrole da glicemia.

Hereditariedade

O principal fator de risco do glaucoma primário de ângulo aberto é quando o paciente tem histórico de glaucoma e cegueira pós-glaucoma na família, sejam parentes próximos ou distantes. Nesses casos, é necessário informar ao médico, pois muitas vezes o protocolo de acompanhamento desse paciente muda. Um paciente que tem uma pressão limítrofe, mas não tem fatores de risco, pode ter um retorno anual. Se tem fatores de risco, o médico muda o protocolo de retorno para manter esse paciente mais assegurado.

Uso de cortisona

Os pacientes recorrem ao uso da cortisona nos olhos em casos de alergias, rinite e conjuntivite alérgica, pois coçam e causam vermelhidão nos olhos. Outra situação é a sensação do olho seco, pois o paciente tem vermelhidão e coceira, e a cortisona, por ser um anti-inflamatório, diminui esse desconforto.

O ideal é usar um lubrificante, que são lágrimas artificiais que, em uso contínuo, não levam a nenhum efeito na pressão intraocular. Existem dois tipos de lubrificantes.

Tipos de lubrificantes oculares (colírios)

Os médicos orientam utilizar o lubrificante com conservantes 5 ou 6 vezes ao dia. Depois que o colírio com conservantes é aberto, removendo o lacre, a validade dele passa a ser diferente da indicada no frasco. Colírios que estão abertos há 6 meses já não valem mais.

Os colírios sem conservantes têm uma data de validade pós-deslacre mais expandida, em torno de 6 meses, pois eles têm um bico diferenciado. Como ele não tem conservantes, esse colírio pode ser aplicado quantas vezes houver necessidade.

O colírio sem conservantes é mais caro. O oftalmologista sabe indicar a melhor marca e o melhor tipo de colírio para cada paciente.

Existem pessoas utilizam colírio depois de dormirem com ar-condicionado ou voarem de avião, sem nem saber o que estão pingando nos olhos.

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CRM: 158986. Graduação em Medicina pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (2004-2010). Residência em Clínica Médica pela Universidade Federal de Santa Catarina (2011-2013) e Cardiologia (2013-2015) e Miocardiopatias (2015-2016) pela Universidade Federal de São Paulo. Título de especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (2016). Professora visitante da Universidade Federal de São Paulo (2016-2018). Médica cardiologista do Hospital TotalCor. Assistência e ensino do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein.