Drogas emagrecedoras

Anfetaminas

Liberação

Em junho de 2017 saiu uma decisão do Senado liberando novamente a introdução das medicações a base de anfetaminas, ou derivadas de anfetaminas, para perda de peso. Essas drogas tinham sido proibidas pela ANVISA desde 2011.

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Desde então, têm-se havido muita polêmica e discussão a respeito da reintrodução ou não dessas substâncias, prescritas por médicos, para o emagrecimento e o combate à obesidade.

O Senado e alguns médicos, inclusive endocrinologistas, alegam que, com a retirada das anfetaminas do mercado, houve um certo aumento no índice obesidade e uma certa dificuldade no tratamento da obesidade. Isso teve um impacto negativo na saúde pública, uma vez que a obesidade é uma doença muito associada a várias outras comorbidades, como doenças cardiovasculares, canceres, impotência, doenças neurodegenerativas, etc.

Com base nisso, têm se aventado a hipótese de que a retirada das anfetaminas fez com que a incidência dessas comorbidades tenha aumentado.

Consequências da proibição das anfetaminas

Alguns endocrinologistas, desde a retirada das anfetaminas do mercado, relatam não terem observado que houve esse tipo de aumento. Acreditam que a obesidade tenha aumentado de maneira intensa e muito rápida no mundo todo, especialmente em países como o Estados Unidos e o Brasil (que segue muito o padrão americano de alimentação), mas não creem que isso se deva à retirada das anfetaminas.

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Com a retirada dessas drogas, várias pessoas que eram extremamente viciadas nessas medicações sofreram o chamado “efeito rebote”. As anfetaminas são drogas que causam uma grande dependência, e as pessoas viciadas nelas, de repente, se viram sem essas medicações quando elas foram retiradas do mercado e não havia mais meios de obtê-las (a não ser no mercado negro).

Muitas pessoas sofreram os efeitos de abstinência das anfetaminas, entre eles o reganho de peso, a redução do metabolismo e, inclusive, um possível ganho de peso maior do que o peso que a pessoa tinha antes de começar o uso de anfetaminas.

Pode ser que, por parte das pessoas que não são da área da saúde, tenha ocorrido um equívoco ao fazer essa associação entre o aumento do ganho de peso e o banimento das anfetaminas do mercado.

Alguns nutricionistas, que trabalham com obesidade há quase 20 anos, relatam terem observado que, com a saída das anfetaminas, houve um grande aumento da importância da conversa e da responsabilidade médica em orientar o paciente. O médico precisou perder um pouco mais de tempo explicando para o paciente que a obesidade é um problema multifatorial.

Consequências do uso de anfetaminas

Antes, existiam receitas de profissionais com três tipos de anfetaminas (as famosas “fórmulas emagrecedoras”), como femproporex, anfepramona e mazindol, além de várias outras substâncias que eles utilizavam para inibir os efeitos colaterais dessas anfetaminas, como calmantes, antidepressivos, diuréticos e hormônios tireoidianos. O paciente entrava no consultório, falava que queria emagrecer, e não havia uma troca de informações – era muito mais fácil para o médico fazer a prescrição de uma fórmula repleta de drogas para emagrecer.

O paciente realmente emagrecia, pois as anfetaminas são catecolaminérgicos – elas têm uma ação hipotalâmica no sistema nervoso central de estímulo de noradrenalina. Isso faz com que haja um aumento de metabolismo e um efeito anorexígeno (inibição do apetite), que trazem a falsa sensação de que a pessoa está tendo controle da própria vida, mas na verdade não está – a droga é que está fazendo isso.

Porém, médicos relatam que, muitas vezes, pacientes que haviam utilizado essas fórmulas durante anos a fio, quando paravam com o uso, tinham verdadeiras síndromes de abstinência com efeitos extremamente deletérios ao sistema nervoso central.

Há relatos de pacientes, por exemplo, com síndrome do pânico ou depressão, pois, quando há a retirada de uma medicação extremamente excitatória, a pessoa tem um efeito de retirada muito forte e fica depressiva.

Como as drogas anfetamínicas promovem uma perda de peso muito rápida, e nem sempre esse peso é somente gordura (na maioria das vezes elas são altamente catabolizantes), além de reduzirem muito rapidamente o tecido gorduroso e reduzirem a quantidade de leptina (um hormônio que tem uma ação de saciedade no cérebro), elas também fazem com que a pessoa tenha uma redução de massa muscular.

Assim, posteriormente, a pessoa tem um duplo problema no metabolismo: além dos níveis de leptina reduzidos, ela também tem a quantidade de massa magra, que é um tecido metabolicamente ativo, extremamente reduzida. Com isso, a pessoa vai ficar bem pouco responsiva a qualquer dieta que fizer.

Alguns endocrinologistas relatam que as pessoas que fizeram uso de anfetaminas, hoje, têm uma dificuldade para emagrecer muito maior do que tinham antes, mesmo fazendo diversos tipos de dietas e, muitas vezes, mesmo usando outros tipos de medicações que auxiliam no controle e tratamento da obesidade.

Alguns endocrinologistas acreditam que, caso as anfetaminas realmente voltem para o mercado (o que é bem provável que aconteça), seja necessário que as pessoas tenham a consciência de entender o verdadeiro mecanismo de ação da droga no sistema nervoso central e no sistema de controle do metabolismo.

O uso de anfetaminas trará consequências no futuro, mesmo porque a pessoa não irá tomar uma droga derivada de anfetamina durante muito tempo. Primeiramente, porque os efeitos colaterais dessas drogas são degradáveis: elas causam insônia, podem levar ao aumento da frequência cardíaca, à taquicardia e a arritmias cardíacas, boca seca, podem levar a um estado de excitação constante ou a fenômenos maníacos, constipação intestinal (prisão de ventre), etc.

Ninguém consegue conviver por muito tempo com esses efeitos colaterais. Como são drogas que causam muita dependência no sistema nervoso central, ela tem o chamado “efeito de resistência” – a pessoa precisa de doses cada vez mais altas da droga para que ela faça efeito.

Alguns endocrinologistas relatam que, na época em que atendiam pacientes que faziam uso de anfetaminas, não era muito raro encontrarem pacientes que começavam, por exemplo, com 25mg de femproporex ou anfepramona, e que paravam de responder. O médico aumentava a dose para 50mg, até chegar um momento em que o paciente estava tomando uma dose absurda de anfetamina e não conseguia mais emagrecer por conta dos fenômenos de economia de energia que o corpo vai adquirindo com o passar do tempo (com a queda de leptina e com a redução de massa muscular).

Como emagrecer sem anfetaminas?

As anfetaminas não são drogas milagrosas, e não vão reeducar as pessoas e ajuda-las a melhorar a relação que elas têm com a comida ou com a compulsão de maneira permanente.

Fazer atividade física, mudar os hábitos alimentares (o que não é fazer dieta) e dormir bem são os principais fatores que farão com que a pessoa mude a própria vida e, consequentemente, possa emagrecer de maneira muito mais saudável.

As anfetaminas aumentam bastante o cortisol, pois reduzem bastante a qualidade do sono.

A pessoa deve ponderar se realmente vale a pena usar as anfetaminas e se ela está disposta a lidar com as consequências, como a queda do metabolismo e os efeitos colaterais que essas drogas podem trazer.

Outras drogas emagrecedoras

Hoje, existe um arsenal de drogas disponíveis no mercado para auxiliar no tratamento da obesidade. Alguns endocrinologistas não acreditam que a obesidade seja um desvio de comportamento, pois existem mecanismos fisiológicos, hormonais e genéticos que fazem com que algumas pessoas tenham mais tendência a serem obesas e a terem comportamentos compulsivos.

A obesidade deve ser encarada como doença, mas existem maneiras saudáveis de tratar a obesidade. As pessoas obesas não devem ignorar o mecanismo de ação das drogas para emagrecimento, mesmo porque irão passar por profissionais que irão prescrever essas drogas. É necessário que a pessoa esteja ciente dos riscos e pense se está disposta a lidar com as consequências e com os efeitos colaterais.