Colesterol

Colesterol: males e benefícios

Quando o assunto é manter a saúde e emagrecer, muita gente tem como primeira estratégia cortar totalmente a gordura da alimentação. Houve uma época em que alimentos como os ovos e a manteiga eram considerados vilões, não só do emagrecimento, como da saúde. Eles eram apontados como causadores do aumento dos níveis de colesterol e até de problemas cardíacos.

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Para muita gente preocupada com a saúde, a gordura está na lista dos alimentos proibidos. Para os mais radicais, ela faz tão mal quanto o álcool e quanto a nicotina presente nos cigarros.

A ideia de que a gordura saturada elevava o colesterol total – aquele que obstrui as artérias, causando problemas cardíacos – surgiu nos anos 50, em uma tese desenvolvida pelo cientista Ancel Keys.

Nos anos 80, cientistas descobriram que a gordura saturada aumenta o mau colesterol, chamado LDL, mas ao mesmo tempo ela é a única fonte para o aumento do HDL, o colesterol bom.

Até então, a única preocupação tinha sido em diminuir o LDL. Ninguém tinha atentado para os riscos de, com isso, também diminuir o HDL.

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Hoje, já se sabe que não é possível abolir completamente a gordura saturada da dieta, porque ela é determinante em processos como a formação de hormônios sexuais e da membrana celular, na absorção do cálcio e também no fortalecimento da imunidade.

Recentemente, o Journal of American Heart Association publicou um estudo afirmando que a questão das gorduras está sendo vista sob a ótica errada. Pesquisadores analisaram os dados nutricionais em 186 países, e calcularam quantas mortes estavam relacionadas às doenças do coração devido à má alimentação – aquela rica em gorduras saturadas – contra o aumento do número de mortes de pessoas que tinham uma alimentação saudável.

Em seguida, eles desenvolveram modelos para prever quantas vidas poderiam ser salvas em todo o mundo se as pessoas substituíssem a alimentação. De acordo com esses cientistas, mais de 710.000 mortes por doenças cardíacas foram causadas pela alimentação pobre em gorduras ômega-6, vindas de fontes vegetais, mas apenas 3,6% das mortes foram causadas pela alimentação com excesso de gordura saturada encontrada em carnes, queijos e outros produtos láteos.

De acordo com o autor do estudo, em todo o mundo as políticas de saúde estão focadas em reduzir as gorduras saturadas, quando, na verdade, o impacto positivo na saúde seria muito maior se a prioridade fosse aumentar o consumo de gorduras polissaturadas como um substituto tanto para as gorduras saturadas, quanto para os carboidratos refinados. As gorduras polissaturadas ômega-3 e 6 são encontradas em peixes de água fria, como o salmão e a sardinha, frutos do mar, óleo de linhaça, sementes de cânhamo e sementes oleaginosas.

Outra recomendação é reduzir o consumo das gorduras trans encontrada em alimentos processados, assados ou fritos. 7,7% das mortes provocadas por doenças cardíacas no mundo foram devido a alimentação rica em gorduras trans.

Colesterol e doença cardiovascular

A arteriosclerose é um problema grave, e que tem relação direta com os níveis de colesterol – colesterol total, HDL e triglicerídeos.

Hoje, é muito importante a discussão sobre os problemas do colesterol e também sobre os fatores de risco envolvidos com a ateromatose (aterosclerose).

Classicamente se discute o risco de doença cardiovascular, por exemplo, de infarto, através do escore de Framingham, um estudo clássico realizado nos Estados Unidos e utilizado no mundo todo. Ele envolve níveis de pressão arterial, a idade da pessoa, níveis de colesterol, se a pessoa tem diabetes e se ela fuma. Portanto, o colesterol está diretamente envolvido na avaliação do risco da pessoa ter um evento cardíaco.

O colesterol LDL é quem faz as placas de ateromatose (as placas de colesterol) nas artérias, e é através dele que a pessoa terá os problemas mais sérios, como infarto agudo do miocárdio, problemas renais, derrame e assim por diante.

Obstrução das artérias

Quando a artéria, que é um vaso, é lesionada, se forma uma fenda onde começa a haver um processo inflamatório. Todas as defesas do organismo começam a partir em direção a essa fenda para que ela seja arrumada. O colesterol bom é como um observador, que passa por todos os locais para verificar onde há um problema e tentar arrumar.

As defesas, como macrófagos, plaquetas, etc., atuam na lesão de forma tão intensa que acabam, junto com o colesterol LDL, formando uma placa, que vai aumentando progressivamente. Quando essa placa se rompe, ela libera coágulos e toda a estrutura da placa, ocasionando a obstrução.

Dependendo do grau de obstrução, pode não acontecer nada. Geralmente, as pessoas começam a ter sintomas com 60 a 70% de obstrução. No coração, o principal sintoma é a dor no peito, pois irá faltar sangue para uma determinada região do coração.

Algumas pessoas de risco mais elevado, como diabéticos e doentes renais, às vezes tem a falta de oxigênio (o infarto) sem ter dor. Nessas pessoas, o cuidado com o colesterol é ainda mais importante.

Avaliação do colesterol

As pessoas obesas têm uma chance elevada de ter o colesterol aumentado. Porém, todas as pessoas podem ter o colesterol aumentado.

A partir dos 20 anos de idade, as pessoas devem fazer uma avaliação do colesterol. Aquelas que têm pessoas na família com alterações no colesterol, que sabidamente têm problemas de infarto agudo do miocárdio, doença coronariana, ou que são hipertensas, precisam sempre fazer avaliações do colesterol, e até mesmo mais cedo (já na adolescência ou na infância) se for um fator de risco elevado.

Quando a pessoa não trata o colesterol alto, ele vai se acumulando, e pode chegar a 100% de obstrução, causando um infarto (quando falta sangue em determinada região do coração).

Para prevenir o infarto, a pessoa deve manter uma dieta com pouca gordura, praticar exercícios físicos e, em determinados casos que não respondem a essas medidas, usar medicação.

Na maioria das vezes, pessoas que têm níveis de colesterol extremamente altos e não conseguem controlar precisam de um tratamento medicamentoso. Para cada nível de colesterol LDL existe um tipo de abordagem.

Níveis de colesterol

Uma pessoa com risco cardiovascular elevado – aquela que tem diabetes, hipertensão, que já teve algum tipo de angina, etc. – deve ter um nível de colesterol LDL bem baixo. Se já teve infarto, pelo menos abaixo de 100mg/dL, mas o ideal seria abaixo de 70mg/dL (o que é muito difícil). Pessoas com alto risco precisam tentar chegar a níveis de colesterol LDL abaixo de 100mg/dL.

Quanto mais elevado o HDL, melhor. Níveis acima de 45, 50 ou 55mg/dL de colesterol HDL são melhores para a pessoa. Quanto mais baixo o LDL, melhor. Em geral, um nível abaixo de 160mg/dL de LDL está controlado, mas o ideal seria abaixo de 130mg/dL.

Acompanhamento médico

Mantendo os níveis de LDL baixos, a pessoa evita que a gordura continue se acumulando nas paredes do vaso. Esse doente pode não ter sintoma, e pode já ter algum grau de obstrução e esse grau se manter por muito tempo sem que haja um comprometimento, tanto para o coração quanto para outros órgãos. Através dos exames, se avalia se houve ou não uma piora.

Hoje em dia existem molas, chamadas stents, que, dependendo do grau e obstrução (80, 90%) podem ser colocadas para desobstruir as coronárias, salvando o paciente de ter um infarto.

Existe um conjunto de fatores que leva ao sucesso de um tratamento global.

As escolhas de alimentação começam no supermercado. Se a pessoa mantém alimentos inadequados dentro de casa, no momento em que tiver fome, ela irá comer esses alimentos, mesmo que elevem o risco cardiovascular.

Colesterol alto em crianças

Hoje em dia, os médicos vêm enfrentando cada vez mais situações em que crianças têm doenças que geralmente eram de adultos. Isso acaba interferindo em toda a vida da criança.

O colesterol alto em crianças na maioria das vezes depende da alimentação e da falta de exercícios físicos. Existem também aquelas com fator genético ou algumas doenças que podem interferir no colesterol. É necessário investigar e tratar da melhor forma possível.

Na fase do “estirão”, quando a criança começa a emagrecer e tem um crescimento rápido, há aumento do apetite, e por conta disso o colesterol pode aumentar um pouco, mas nãoabsurdamente. Se houver esse aumento, ele deve ser controlado.

Existem pessoas que nem chegam a tomar remédios para o colesterol alto. Na maioria das vezes, os médicos não prescrevem medicamentos para crianças, por exemplo. O colesterol alto em crianças é tratado com dieta e exercícios.

Hoje em dia, já existem medicamentos que são liberados para crianças, como fitoesteróis. Porém, o ideal é controlar a alimentação e praticar atividade física. Na maioria das vezes, os pais da criança com colesterol alto também têm colesterol alto.

É necessário ficar atento às taxas de colesterol nas crianças, principalmente naquelas que não comem frutas, verduras e saladas, e só comem biscoitos, salgadinhos, sucos industrializados, etc., mesmo que sejam magras. É necessário prestar atenção nas crianças “gordinhas”, mas elas nem sempre têm o colesterol alterado.

Colesterol em magros

Algumas pessoas pensam que só quem está acima do peso pode ter colesterol alto. Porém, existem pessoas que têm facilidade em manter o peso, pois já têm uma predisposição a serem magras, mas acabam aumentando o colesterol mesmo sendo magras, porque não têm uma alimentação adequada, não praticam atividade física, etc.

Alimentos que aumentam o colesterol

Os principais alimentos que acabam aumentando o colesterol são frituras, gorduras, massas, doces (que geralmente têm muita gordura) e bebidas alcóolicas.

Colesterol: fator genético

Geralmente quem tem colesterol alto não faz atividade física e não se alimenta corretamente, apesar de existirem exceções. É necessário mudar esses hábitos.

Existem pacientes que fazem atividade física todos os dias e têm um cuidado com alimentação, mas que têm um fator genético, nas quais o médico consegue controlar o LDL, mas o HDL fica sempre no limite. O ideal é ter um HDL alto e o LDL baixo.

Controle do colesterol através da alimentação

Quando é diagnosticado o colesterol alto, a primeira medida é cortar os carboidratos simples, as gorduras saturadas e as gorduras trans da alimentação, pois são elementos que aumentam a quantidade de colesterol.

Ter uma alimentação com elementos variados pode não somente baixar o colesterol, mas também prevenir o aumento do colesterol.

Carne

Pessoas que têm o colesterol alto podem comer carne vermelha e frango, desde que sejam cortes magros. Não se deve comer frango com pele, carne gorda ou as bordas de gordura da picanha, pois são gorduras saturadas.

Ovos

Hoje, sabe-se que o consumo de ovo não aumenta o colesterol, embora 1 ovo por dia seja suficiente para alcançar a recomendação diária de colesterol. Se a pessoa já tem um colesterol alto, descontrolado, ela não deve comer ovos todos os dias.

A pessoa com níveis normais de colesterol pode comer um ou mais ovos por dia. A clara do ovo é pobre em colesterol (pois ele está concentrado na gema), e pode ser consumida sem problemas, pois é uma proteína de alto valor biológico.

A molécula de colesterol é constituída de gordura. Além da gordura, a gema do ovo tem outras substâncias, como a colina, um nutriente associado com a saúde cerebral, a biotina e a vitamina E. Não se deve retirar a gema do ovo da alimentação, mas fazer um controle da quantidade de gema que é consumida.

Óleo de coco e azeite

O óleo de coco não é contraindicado para quem tem o colesterol alto. É até interessante consumir o óleo de coco, substituindo o óleo refinado. Porém, ele não deve ser usado para fazer frituras, assim como o azeite, devido a uma questão de quantidade.

Quem tem colesterol alto deve consumir o azeite, mas, usado para fritura ele pode perder suas propriedades e saturar. O óleo de coco e o azeite devem ser usados em uma quantidade recomendada.

Ômega-3

Os peixes têm gordura saturada, mas é o ômega-3, que é muito importante para várias funções do organismo. Os peixes de águas profundas e frias, como o atum, o salmão e a sardinha, são os que têm maior quantidade de ômega-3.

A sardinha tem a mesma quantidade de ômega-3 que uma posta de salmão. O ômega-3 é uma gordura que ajuda na questão anti-inflamatória do organismo e aumenta o colesterol HDL.

Alimentos com fitoesteróis

A margarina tem gordura trans.

Fitoesteróis são substancias encontradas em alimentos como nozes, abacates e folhas verde-escuras. Para ter o benefício do fitoesterol, é necessário consumir uma quantidade muito grande desses alimentos, que a pessoa não consegue atingir na alimentação.

O mercado começou a suplementar alguns produtos com fitoesterol, como o creme vegetal, alguns leites fermentados e alguns iogurtes que são ricos em fitoesterol. São produtos que estão relacionados com a redução do colesterol.

O fitoesterol é uma substancia que compete com a absorção do colesterol. Se a pessoa está consumindo fitoesterol, não haverá absorção, no intestino, do colesterol total.

Mesmo que a margarina tenha muito fitoesterol, é necessário tomar cuidado. Já o leite fermentado pode ser uma boa escolha, pois também tem lactobacilos e é um produto que irá trazer benefícios.

Carboidratos

Os carboidratos estão ligados ao aumento do colesterol e das triglicérides. Deve-se priorizar os carboidratos integrais, e retirar da alimentação todos os carboidratos refinados, como açúcar, doces em excesso, pão branco, massas e arroz branco, pois eles aumentam o colesterol e principalmente as triglicérides.

Proteína animal e vegetal

O peito de frango é uma carne magra, que não tem muita gordura saturada e colesterol caso seja consumido ou preparado sem a pele.

O patinho, o filé mignon, o lagarto e o músculo são carnes bem magras, que não têm gordura entre as fibras da carne.

A maminha e a picanha, por exemplo, mesmo que se retire a gordura, são carnes gordas e têm gordura entre as fibras da carne.

Laticínios, como leite e queijo, podem ser consumidos, desde que sejam desnatados. Leite integral, queijo amarelo e iogurte integral são ricos em gorduras saturadas.

O colesterol está ligado a proteínas animais. Proteína vegetal, como a do feijão, não tem colesterol.

Equilíbrio do colesterol

Níveis muito baixos de colesterol ruim também são contraindicados.

É necessário ter colesterol no organismo, pois ele é importante para a síntese de hormônios, principalmente hormônios femininos e masculinos (como a testosterona), ele faz parte da baía de mielina, que é uma estrutura do cérebro, e ajuda na metabolização de gorduras A, D, E e K.

A pessoa precisa consumir uma quantidade mínima de colesterol.

A atividade física aumenta o colesterol bom. Às vezes não é a alimentação que irá aumentar o colesterol bom, mas a atividade física. Pessoas com colesterol alto, diabéticos, cardíacos, pessoas que querem emagrecer, etc., todas precisam fazer atividade física como prevenção.

Diabetes e colesterol

Muitas pessoas, quando são diagnosticadas com diabetes tipo 2 e precisam fazer a reposição de insulina ou controlar com a alimentação, usam também uma medicação para o colesterol. O diabético já vem acompanhado por outra patologia, que normalmente é o colesterol alto ou a hipertensão – é a chamada síndrome metabólica.

Muitas vezes, controlando a alimentação e fazendo atividade física, a pessoa não precisa tomar essa quantidade de medicamentos.

Tratamento medicamentoso

Muitas vezes a pessoa não muda o hábito alimentar e não inclui atividade física na sua rotina, e quando se consulta com especialista já começa a tomar medicação, mas às vezes não precisa.

Muitas vezes a pessoa toma a medicação e, com o passar do tempo, toma dosagens cada vez maiores do medicamento, pois o organismo começa a ficar resistente e ele não faz mais efeito.

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CRM: 124205. Doutorado em andamento em Endocrinologia e Metabologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Residência em Clínica Médica pelo Hospital Geral de Pedreira. Aperfeiçoamento em Medicina Tropical (Hanseníase) pela Universidade Federal de Alagoas (2006). Graduação em Medicina pela Universidad de Montemorelos (1997-2005). Título de Especialista em Endocrinologia e Metabologia pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (2013). Médica endocrinologista da Prefeitura Municipal de Carapicuíba (2013-atual). Médica endocrinologista da Prefeitura Municipal de Cotia (2007-2016). Médica do Programa Saúde da Família da Prefeitura Municipal de Vargem Grande Paulista (2006-2007).